Independência da Bahia

Bom dia!! Você sabia que hoje se comemora a Independência da Bahia? Separamos um poema do Drummond para este dia.

O POEMA DA BAHIA QUE NÃO FOI ESCRITO

Um dia – faz muito tempo –
achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia,
mãe de nós todos, amante crespa de nós todos.
Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia.

Ela era para mim um desenho no atlas,
onde nomes brincavam de me chamar:
Boninal,
Gentio do ouro,
Quijingue,
Xiquexique,
Andorinha,
– Vem… me diziam os nomes ora doce.
– Vem! ora enérgicos ordenavam.
Não fui.
Deixei fugir a minha mocidade,
deixei passar o espírito de viajem,
sem o qual é vão percorrer as sete partidas do mundo.
Ou por outra, comecei a viajar por dentro, à minha maneira.
Ainda carece fazer poema sobre a Bahia?
Não.
A Bahia ficou sendo para mim
um poema natural
respirável
bebível
comível
sem necessidades de fonemas.

Carlos Drummond de Andrade

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Deserto e poesia

Hoje é o Dia Mundial de Combate a Desertificação. Para este dia, fica aqui o poema “Grandes são os desertos”, de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa).

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

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Dia de Santo Antônio

Olha que linda a poesia que Fernando Pessoa escreveu em homenagem ao santo casamenteiro:

SANTO ANTÔNIO
“Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.
(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)
Adiante … Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.
Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.
Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.
Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.
Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.
Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.
(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.
És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.
És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.
És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.
Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?”

Estatua viva de Santo Antônio

Estatua viva de Santo Antônio

Fernando Pessoa

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Dia dos Namorados!

Hoje é dia de amar! Então vamos de Vinícius de Moraes:

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

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Quarta também é dia de aula!

Bom dia com poesia, porque hoje é dia de aula!!

“É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz”.

Elisa Lucinda

elisa_lucinda

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Aluna fala poema

Na aula de ontem, a aluna Leyla Lobo escolheu um poema de Mário de Andrade para falar pra gente. Conosco há 15 anos, é uma prazer enorme ter a Leyla em nossas aulas. Assim como ela, você também pode fazer parte desse time. Escreva para nós! escola@casapoema.com.br

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O Grande Oceano

Você sabia que hoje é o Dia Mundial dos Oceanos? Então mergulhemos nas palavras de Pablo Neruda em comemoração a este dia!

O GRANDE OCEANO

“Se dos teus dons e das tuas destruições, Oceano,
as minhas mãos pudesse destinar uma medida,
uma fruta, um fermento,
escolheria o teu repouso distante,
as linhas do teu aço,
a tua extensão
vigiada pelo ar e pela noite,
e a energia do teu idioma branco
que destroça e derruba as suas
colunas na sua própria pureza demolida.

Não é a última onda com o seu
salgado peso a que tritura costas e produz
a paz de areia que rodeia o mundo:
é o central volume da força, a potência estendida
das águas, a imóvel solidão cheia de vidas.
Tempo, talvez, ou taça acumulada de todo
movimento, umidade pura que não selou a morte,
verde vícera da totalidade abrasadora.

Do braço submerso que levanta uma gota
não fica senão um beijo de sal.
Dos corpos do homem nas tuas margens uma
úmida fragrância de flor molhada permanece.
A tua energia parece resvalar sem ser gasta,
parece regressar ao seu repouso.

A onda que despreprendes, arco de identidade,
pena despedaçada,
quando se despenhou foi só espuma,
e regressou para nascer sem se consumir.

Toda tu força volta a ser origem.
Só entregas despojos triturados, cascas que
separou o teu carregamento,
o que expulsou a ação da tua abundância,
tudo o que deixou de ser cacho.

Tua estátua,
está estendida além das ondas.

Vivente e ordenada
como o peito e o manto
de um só ser e suas respirações,
na matéria da luz içadas, planícies levantadas pelas ondas,
formam a pele nua do planeta.
Enches o teu próprio ser com tua substância.

Tornas repleta a curvatura do silêncio.

Com teu sal e teu mel treme a taça,
a cavidade universal da água,
e nada falta em ti como na cratera destampada,
no corpo rude: cumes vazios, cicatrizes,
sinais que vigiam o ar mutilado.

As tuas pétalas palpitam contra o mundo,
tremem os teus cereais submarinos,
as suáves algas perduram a sua ameaça,
navegam e pululam as escolas, e apenas sobe ao fio
das redes o relâmpago morto da escama,
um milímetro ferido na distância das tuas
totalidades cristalinas”.

Pablo Neruda

Vista do Museu Pablo Neruda

Vista do Museu Pablo Neruda

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Promoção Dia dos Namorados!!

O dia dos namorados está chegando e você não sabe o que dar de presente ao seu amor? Participe da promoção da Elisa Lucinda e ganhe este maravilhoso livro para presentear quem você quiser. Confere aí!

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Dia Mundial do Meio Ambiente com Manuel de Barros

Feliz Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia! Para comemorar a data nada melhor que um poema de Manuel de Barros, o poeta que que virou natureza!

ENCONTRO DE PEDRO COM O NOJO

A rosa reteve Pedro. E a mão reteve a música como
paisagem de água na retina.
Era noite no bairro do Flamengo. As pensões de estudantes
dormiam nas transversais.
Pedro mergulhado em trevas, no quarto, pensa no
rouxinol e na bomba atômica.
As coisas mais importantes lhe aconteciam no escuro,
como a surpresa de uma flor desabrochada à noite.
Pedro recebe uma brisa no rosto e se olha, inundado de
solidão. Se chorasse poderia dormir depois. Prefere andar.
Pedro carrega a beleza como um prédio em ruínas. Desce
as escadas e ganha a rua.
Pedro anda tendo temores esquisitos. Por exemplo: que
desapareçam os fracos da face da terra e restem apenas
pessoas blindadas de sol.
Teme que desapareçam as criaturas roladas dos abismos de
Deus, com seus andrajos, com as suas cicatrizes.
Pensou em plantar uma árvore. Em pensamento viu-se
desmembrado, seu corpo espalhado nos pedaços de um
espelho.
Entrou numa pequena rua. Viu pássaros roubando suicidas.
Meninos carregando escadas. Respirou um odor de mofo e
rosas velhas.
Estava bem longe agora de seu quarto pobre. Seu paletó
estaria dependurado no cabide. Esmeralda, a mulata, se
surpreenderia de não encontrá-lo àquela hora.
Pedro começa a esfregar os olhos para espantar Esmeralda;
mas ela vinha de flancos nua rolar na aresta dos desejos.
Vinha de chapéu de breu e sonos… Distraiu-se afinal vendo
os azulejos roídos pelos peixes do Ministério da Educação.
Pedro ficou parado. Depois entrou no Frege, atraído por
um samba. Viu lá dentro um negro sentado com uma
clarineta fincada no rosto!
O negro atropelava as pessoas com as suas queixas que
escorriam pelas ruas como água. Pedro foi saqueado pela
angústia. Cuspiu e retirou-se.
No largo, entre pássaros, acalmou-se. Uma funda sensação
de pertencer às coisas mudas, como a folha que pertence à
árvore, invadiu-o.
Doce pélago! Pedro saiu leve para junto do mar. Coral e flor
de caos ia colher — entre baixios sangrentos.
Seu era o mundo. Dormiu entre pedras. O dia amanheceu
em suas mãos.
Pedro entregou-se ao dia, como ao seu musgo se entrega o
verde.
Pureza de ruínas nos olhos de Pedro! Estava sujo e coberto
de lírios.
Às doze horas Pedro regressou ao quarto. Debaixo da
escada um homem dormia como um peixe: a boca
descampada úmida e serena. Subiu.
Pedro deitou-se, pensando… A inércia me devora, enraíza-se
em meu corpo, como líquenes na pedra — se fico deitado.
Sentia fluir de seus ossos a inércia e brotar de seus dedos,
como cardos, o nojo.
Preciso caminhar. Pedro se levanta e vai à janela. Lá fora,
bem rente ao muro encardido, uma pereira florida…
Pedro quer nascer do chão. Pedro acha que precisa florir até
a altura de uma janela. Oferecer-se ao luar… e…
Ó propício frio das sombras! Entra Esmeralda autêntica
com sol nas carnes e nas palavras. Pedro retorce, quebra
Esmeralda nos braços, baba-a toda e a engole.
Agora Pedro vai jiboiar nas ruas de novo. Pedro é louco.
Arrasta-se pelos becos com a sua porcaria na alma.
Engole sua anulação como água. O nojo lhe cresce como
um braço podre, mirrado. Um braço podre saindo das
costas…
Pedro engole a maçã do caos. Vai trôpego deitar-se nas
pedras. Esmeralda tritura-o agora.
Tudo que há de noturno está entranhado nas roupas de
Pedro. Bebe goles de treva. Liberdade que se evola de ti, no
escuro, Pedro! Não percebe.
Cogumelos brotavam de seu ventre, e ocasos. Calangos
vinham lamber os seus pés e mascar suas roupas os bois.
Pedro se aproximara das coisas. Para dormir com elas.
Pedro deitou-se entre objetos. A terra comia seu abdômen.
A terra cheia de poros, fermentada de raízes, rosas podres,
bichos corrompidos, penas de pássaros, folhas e pedras — o
atraíam.
Pedro era um barro ofegante. Como um fruto peco, deixou
sua boca no chão, imóvel, aberta.
Tinha de recostá-la na terra e haurir, das raízes
intumescidas, seiva.
Pedro sabia: todo aquele que não bebe água no solo, secará
como cana cortada no pé. Ficou deitado.
Pedro estava só. Deixava-se completamente às coisas,
recebendo suas emanações físicas.
Pedro se encostava nas coisas, afagava-as como se elas
fossem criaturas íntimas. Pedro era reconstruído.
Agora Pedro ressurge. Vem botando o pescoço para o sol.
Despegando-se da escuridão, pesadamente, como um bêbado
gordo, e aos pedaços, estraçalhado…
Pedro vem tateando na luz, subindo nas bordas do poço,
soltando de sua casca o moliço… Deixa pedaços dele no
escuro.
Pedro entra em seu quarto. Está perfeito e pobre.
Poderemos sequer fazer uma ideia de que resultará do
encontro de um homem com o nojo?
Agora Pedro está dormindo.

O poeta que virou  natureza

Manoel de Barros: o poeta que virou natureza

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Dica para o feriado!

Que tal nesse feriado assistir um documentário sobre a vida de Manoel Barros? “Só Dez Por Cento é Mentira” é um filme altamente premiado e tem a direção de Pedro Cezar, ex aluno da Casa Poema. Mergulhe nessa biografia fantástica!

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